quinta-feira, 12 de maio de 2011

CRISE DE ABSTINÊNCIA


Meu pai era fumante (parou há cerca de 10 anos). Minha mãe também era (parou quando morreu há 3 anos). Meu irmão ainda é (espero que pare em breve).

Fui uma adolescente típica: implicante, contestadora, com ideias mirabolantes, conhecedora do mundo e dos segredos da vida. Entretanto, não entendia o segredo dos vícios. Provavelmente porque eu não tinha nenhum, simplesmente não compreendia porque meu pai não parava de fumar já que sabia que o fumo lhe fazia tão mal. Eu sempre questionava isso com ele, mas ele não tinha respostas para dar-me, ficava sem argumentos diante das minhas indagações.

Não sei ao certo explicar o porquê, talvez tenha a ver com minha característica de impaciência, pavio curto, ansiedade ou excesso de energia, não sei... O fato é que nunca me prendi a nenhum vício, até cheguei a fumar na adolescência e mesmo com todo o histórico familiar, não cheguei a viciar, sempre dei conta de iniciar ou findar algo que me propusesse.

Foi assim quando decidi tornar-me vegetariana. Fiquei meses sem comer carne, mas enjoei de comer só arroz com feijão (haja vista que na época não comia verduras e legumes) e acabei voltando a ser carnívora.

Também foi fácil parar de tomar leite de vaca (base da minha alimentação, chegava a tomar quase um litro por dia) depois que o Dr. Dermatologista diagnosticou-me alérgica à lactose.
Inventei também de não consumir mais açúcar; optei por não mais freqüentar determinados ambientes antes comuns; excluí pessoas (de grandíssima relevância) da minha vida... ou seja, nada ou qualquer coisa impedia minha determinação ou limitava meus atos simplesmente por serem comuns ou freqüentes na minha vida; a grosso modo, nunca me permiti prender a qualquer vício, fosse ele qual fosse, sempre fui livre para iniciar ou findar algo que me propusesse.

Hoje faz aniversário de 2 meses. São 60 dias; 1.440 horas; 86.400 minutos; 5.184.000 segundos sem “ele”: tão lindinho, tão fofinho, novinho, fresquinho, um neguinho cheio de gás e energia; esperto, forte, robusto; tudo-de-bom. Toda minha teoria de imune aos vícios caiu por terra nessas últimas semanas com sua ausência súbita, seu abandono, sua falta.

Quando ele partiu, achei que seria por poucos dias, uma ou duas semanas no máximo, mas foram muitos os dias, tempo infinito que mesmo contado parece uma imensidão muito maior. Agora tenho certeza que não voltará mais aos meus braços; sei que jamais nos veremos novamente. Meus dedos não mais deslizarão sobre ele, meus olhos não mais pairarão sobre sua beleza de ébano. Acabou nosso relacionamento tão íntimo. Simples assim, é o fim.

Confesso que a dor maior já passou. Foram muitas e muito fortes as crises de abstinência. Usei todo meu poder de concentração no processo de ausência, mas mesmos assim sofri, chorei, perdi o sono. Entrava e saia dos cômodos da casa à noite e nos fins de semanas (momentos em que nossa intimidade era maior) desorientada, alucinada, em fortes crises.

Agora consigo compreender meu pai e seu vício pelo cigarro. Sito na pele o quanto ele deve ter sofrido quando decidiu parar de fumar e acredito que ainda sonha com um filtro branco entre os dedos.

Terei de rever meus conceitos de imunidade aos vícios e sobre iniciar ou findar algo ao qual me proponho, pois já não suporto mais esta ausência, esta abstinência. Está decidido: semana que vem compro outro notebook.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

CRESCER


Hoje acordei antes que a própria manhã. Não que o sono tivesse acabado, era mais um misto de ansiedade com vontade de “fazer acontecer” mais depressa.

Mesmo não mais dormindo, esperei o despertador dizer-me a hora de levantar e buscar o pão para o café da manhã. Em frente à padaria tem uma loja de aluguel de festas infantis. Ela está ali faz um bom tempo, um ano, talvez mais, mas hoje um enfeite daqueles de por na mesa do bolo chamou-me a atenção: a Sininho, sentada numa flor, olhava para mim e parecia seguir-me com os olhos enquanto passava na frente da loja.

Quando a gente é criança, tem um momento, que fica louco para crescer logo, tornar-se adulto, dar conta de sua própria vida, sair da casa dos pais, fazer o que quiser. Nessa época a gente acha que tornar-se adulto é ter o emprego dos sonhos, ganhar muito dinheiro, dirigir um carrão, tomar sorvete e comer chocolate todos os dias e passar horas na frente da TV vendo filminho, desenho ou só jogando game.

Lembro-me que sonhava em ser executiva, trabalhar numa multinacional, atender inúmeros telefonemas, ler diversos livros, conversar (e pensar) em vários idiomas, usar saltos astronômicos e roupas elegantes. Brincava com minhas amigas de escritório e pegar “emprestada” (leia-se: escondido) a calculadora e a máquina de escrever do meu irmão eram o ápice da diversão. 

Sonhei também em ser policial e tornar-me professora. Mas esses sonhos não valem, porque foram induzidos pelas profissões de meus pais. Mas era divertido brincar de escolinha e ensinar as bonecas o B-A-BA ou correr atrás dos meninos na rua, prendê-los com algemas imaginárias em celas cercadas com uma vara ou um cabo de vassoura.

Também fui exploradora na época que estavam construindo a galeria de águas fluviais na minha rua. Nós entrávamos dentro dela na beirada do rio e seguíamos rua acima (ou abaixo se pensarmos que estávamos dentro da galeria e debaixo da rua) e íamos sair em outro bairro, todos sujos de lama e arranhados.

Era maravilhoso tudo aquilo e ainda: cantar na caçamba de caminhões ou representar no teatro do dia das mães como se fosse artista famosa; escrever as redações da escola e vir-me autografando meus próprios livros.

Tudo era projeção para o futuro. Era ensaio para uma vida que queríamos viver quando crescêssemos. Era nossa ânsia, nosso desejo mais latente, nosso sonho fosse dormindo ou acordado: tornar-nos adultos.

Sábio foi Peter Pan, que compreendeu a dinâmica da vida bem antes e sonhou, desejou, buscou e conseguiu nunca crescer. Acho que era isso que a Sininho pensava ao olhar-me hoje pela manhã quando fui buscar pão: “Ela cresceu”...

terça-feira, 5 de abril de 2011

A SAGA DA PASTA

Dia desses perdi a palmilha do meu tênis dentro do meu carro. Revirei tudo, levantei livros, olhei debaixo dos bancos, recolhi objetos pelo chão e nada dela. Quando reclamava a uma amiga ela disse-me que provavelmente algum duende havia escondido a palmilha do meu tênis só para divertir-se comigo e quando ele cansasse da brincadeira eu a encontraria.


Sem mais nem menos, alguns dias depois, ela (a palmilha do tênis) estava jogada ao lado da alavanca do freio de mão, entre os dois bancos da frente. Bem ali, onde eu havia olhado uma dezena e meia de vezes. Os duendes haviam cansado da brincadeira.

A chave do carro, já não tenho mais conta das vezes que perdi. Cogitei até a possibilidade de colocar um alarme nela para que apitasse quando eu acionasse um botão ou batesse palmas, mas minha filha avisou-me que essa tecnologia ainda não chegou a nossa cidade e que eu me contentasse em procurá-la até encontrar e que ligasse para meu celular todas as vezes que ele sumisse, rezando para que eu não tivesse colocado-o no modo silencioso.

Nesta semana sumiu uma pasta da minha sala. Uma dessas pastas simples de trilho, feita de papelão vermelho. Uma pasta que não custa mais que R$ 1,00 em qualquer papelaria. Sumiu. Simplesmente desintegrou-se.

Demos por falta dela dois dias depois. Procura daqui, revira dali. Pergunta um, pergunta outro. Olha dentro de um armário, procura na mesa vizinha. Até o lixeiro vasculhamos. Rodamos todo o prédio em busca da bendita, mas ela realmente parecia ter criado pernas ou, na teoria da minha amiga, os duendes estavam dispostos a brincar novamente.

Lembrando-me do episódio da palmilha do meu tênis resolvi revirar meu carro. Quem sabe os duendes haviam levando a pasta e colocado ao lado da alavanca do freio, entre os dois bancos da frente... mas, em meio à confusão e profusão de livros, papeis, sapatos, blusas, not book, bola, bala e tudo mais que reside no meu carro, não encontrei a pasta.

Passei um fim de semana inteiro preocupada com aquela boa e velha pasta de trilho, feita de papelão vermelho. Coitada, tão sozinha e indefesa; tanto que me ajudou guardando papeis, lista de presenças, justificativas de ausências, e-mail’s, telefones... e agora perdida, raptada pelos sádicos duendes.

Segunda-feira e um mutirão foi feito. Toda a Secretaria uniu-se em prol de descobrir o paradeiro da bendita pasta de trilho, feita de papelão vermelho. Todos juntos e unidos, Salve-Rainhas foram rezadas, dedos apontados em riste, olhos marejados em lágrimas, telefonemas dados e, finalmente, eis que os duendes cansaram-se da brincadeira e abandonaram-na em uma escola próxima (onde na segunda-feira da semana passada eu havia dado planejamento aos professores) e a pasta foi trazida de volta para minha mesa (lugar aliás de onde ela não sairá mais tão cedo) sã e salva, recheada de papeis, lista de presenças, justificativas de ausências, e-mail’s, telefones...

quinta-feira, 31 de março de 2011

ESPELHO


Li em algum lugar, ou ouvi de algum professor de Psicologia na faculdade, sobre a importância de mostrar à criança sua própria imagem no espelho, dizer a ela o quanto é bonita, especial, inteligente: única. Essa atividade simples de descoberta dos pequenos leva-os a iniciarem a construção da própria imagem, a construção de si mesmos; os leva a perceberem-se como indivíduos, notando suas potencialidades, aprendendo a lidar com suas limitações, buscando desafios de superação do que são de fato e do que pretendem tornar-se.

Quando criança, a vida parece uma possibilidade infinita de histórias a serem vividas. A cada momento que passamos na nossa infância imaginamos uma personagem diferente para vivermos: hora mulher guerreira que vence todos os monstros; hora princesa frágil que necessita ser salva pelo príncipe encantado; hora eremita que vive isolada no cume da montanha; hora mestre cuca preparando delícias para servir aos seus; hora desbravadora de terras desconhecidas comandando uma legião de seguidores; hora mãe zelosa de belos pimpolhos que apenas alimentam-se e dormem em berços cor de rosa...

Na medida em que o tempo vai passando e as tranças e os laços de fita vão deixando de fazer parte do figurino dessas personagens, os roteiros também vão mudando, alterando-se de acordo com o cotidiano. Agora elas não olham mais para o espelho com tanto entusiasmo, sempre encontram um “defeito” aqui ou ali que as perturbam. Simplesmente esquecem-se de apenas admirarem-se, constatarem que são lindas, especiais, inteligentes: únicas. Olham além da imagem refletida procurando algo que nem elas mesmas sabem o que é.

Essa busca e a necessidade de viver o que se encontra, mistura-se com os sonhos das aventuras da infância e a necessidade de também vivê-los. As personagens vividas aqui estão em conflito com as vividas acolá. Os roteiros fundem-se e confundem-se e muitas vezes, o tempo (“tempo, tempo, tempo, mano velho tempo...”) não permite que toda a história seja vivida ou, em outros casos, o autor dessas mesmas histórias decide por alterações estratégicas neste roteiro que atordoa a personagem principal, tira-a de foco, dispersa-a, faz com que perca suas falas, inibe-a diante da platéia, leva-a a recolher-se até que recobre a sobriedade, concentre-se novamente e retome a cena bem de onde havia parado, do mesmo ponto, mas com um novo espírito, com uma nova expectativa.

Em mais uma passagem de tempo o espelho revela outros pontos. Agora vemos um brilho diferente nos olhos. Talvez ainda exista alguma dúvida, talvez ainda resida alguma hesitação naquela pequena criança de outrora que agora cresceu, viveu, amadureceu; entretanto o crescer, o viver, o amadurecer e mais ainda, o representar a vida, o enfrentar os desafios que ela lhe proporcionou, o conviver com os diversos atores que com ela contracenaram nessa bela história deu-lhe a certeza de que de fato é linda, de fato é especial, de fato é inteligente, de fato é única e agora, fica só o prazer de colher os louros de sua belíssima apresentação dessa vida.

terça-feira, 8 de março de 2011

MULHER

Foto: Claudiana Eduarda Lerbarch

Dia desses conversava com algumas amigas e pedia a elas uma ideia, uma sugestão, um tema para a crônica do Jornal para o mês. De pronto as duas sugeriram-me “Mulher”. “Fale sobre as diferenças das mulheres de ontem para as mulheres de hoje”, diziam-me elas, “Fale de nós, de mim, de você!”.

Subitamente lembrei-me das mulheres de antigamente, aquelas que ficavam em casa, com um filho encaixado na cintura, outro segurando-lhe a barra do vestido e um rebento sendo gerado no seu ventre; ventre este que ora estava encostado no fogão a lenha mexendo as pesadas panelas de ferro e ora estava molhado na bica de água lavando roupas.

Lembrei-me, também, da Dona Maria contando-me sobre como era dura sua vida antigamente: ela levantava cedo e junto com a água para o café, também colocava no fogo as outras panelas (a do arroz, a do feijão, a da mandioca, a da polenta). “Porque”, dizia ela, “os companheiros não aceitavam que o almoço passasse das 9h.”. Neste meio tempo ela ainda tinha que correr no moinho de pedra para ver se o fubá estava pronto e, antes de subir o morro com as marmitas cheias de almoço, ela precisava calcular se o milho depositado ali seria o suficiente para ela ir e voltar sem que acabasse.

Minha avó encaixava-se perfeitamente nos dois relatos acima, com a diferença que ela ainda tinha que lidar com burros, animais de carga de personalidade muito forte. É que meu avô era dono de Tropa de Burros (principal meio de transporte de carga no tempo deles) e, além de alimentar os 13 filhos, companheiros e tropeiros, Dona Cecília precisava despejar balaios de milho nos cochos para os burros.

Mas isso foi há muito tempo, naquela época a mulher era uma espécie de escrava velada. Hoje não é assim, eu, por exemplo, tenho uma jornada semanal de 60h, distribuídas em dois empregos. Aos 35 anos sustento sozinha a minha casa e a minha filha adolescente. Meu fogão não é à lenha, não lavo roupas na bica e não alimento burros: cozinho delícias no fogão a gás, as roupas lavam-se sozinhas na máquina e três vezes por dia coloco ração na vasilhinha da Puka.

É, pensando bem, existem algumas semelhanças, mas há uma diferença crucial: eu a maioria das mulheres que conheço sabem o que querem e lutam por isso. Hoje podemos dizer o que gostamos ou não, o que nos faz felizes e simplesmente afastar de nossas vidas o que nos faz chorar.

Hoje não precisamos ficar em casa esperando alguém nos dizer uma palavra, dar-nos algum consentimento. Nós, por nós mesmas vamos à luta; dirigimos nossos próprios carros; saímos com as amigas para tomarmos uma cervejinha; escolhemos nossos namorados (mesmo que alguns ainda assustem-se com nossa independência); fazemos planos; concretizamos sonhos; buscamos a felicidade.

E sabe por que fazemos tudo isso? Porque somos mulheres, porque fomos moldadas a ferro e a fogo durante muitos anos, segregadas em nós mesmas e hoje conquistamos a liberdade que nos fortalece e nos permite construirmos e reconstruirmos nossas próprias histórias e, quem sabe, a história daqueles que tenham a hombridade de seguir ao nosso lado.

Parabéns mulheres pelo nosso dia!

segunda-feira, 7 de março de 2011

A PERFEIÇÃO

Acordei bem cedo, o sol ainda nem raiara de todo. Pulei da cama e coloquei-me a andar de um lado para o outro. O sonho que tivera a noite ainda estava muito vivo na minha mente. Podia sentir toda sua força, sua realidade e a necessidade inerente da sua busca.

Juntei minhas coisas, fechei portas e janelas, coloquei uma mochila nas costas com o mínimo de pertences possíveis e parti em minha jornada. Não seria fácil, disso eu já sabia, mas não tinha como não ir: ela chamava-me em minha mente, meu nome latejava em sua voz grave e forte, sua voz perfeita.

Virei montanhas a sua procura. Atravessei vales lindíssimos, um deles em especial, com uma relva salpicada de pequenas flores roxas e amarelas. O vento batia naquelas flores e as faziam bailar de um lado para o outro. Junto com o vento que soprava naquele campo senti o cheiro daquela que procurava. Parei naquele chão macio e esperei algum tempo aspirando o ar, tentando localizá-la, vários foram os segundos que passaram, mas ela não estava mais ali. Neste momento percebi que o sol se punha, juntei alguns gravetos, fiz uma pequena fogueira, ali mesmo no campo aberto. Parei repousei por uma noite apenas.

Quando o céu ficou negro e os pequenos pontos brilhantes apareceram no firmamento, tomei minha mochila e passei a vasculhar meus pertences. Lá no fundo achei uma caixinha onde guardei minhas lembranças, todas elas, bem dobradinhas e ajeitadinhas para que eu as consultasse sempre que visse necessidade, mas a cada dia que passava, menos vontade sentia de visualizá-las, de sentir a emoção de revivê-las, apenas minha busca interessava, apenas encontrar o objeto do meu desejo, o atormentador dos meus sonhos, apenas ele satisfaria meus anseios, me daria a paz, me faria findar minha jornada.

Já com sol alto no céu, atravessei um rio caudaloso. Sua correnteza quase levou embora minha mochila com meus provimentos, aqueles parcos cuidados que optei por levar junto a mim em minha jornada. Mas fui mais rápido e forte que as águas do rio: atei-me aos meus sentimentos, emoções e lembranças e com braçadas fortes cheguei à margem oposta.

Um pouco cansado da jornada e de todos os percalços pelos quais vinha passado em todo caminho, assentei-me junto a uma frondosa árvore no cume de uma montanha. De lá, avistei uma bela jovem. Ela cantava e dançava ao sabor do vento, numa melodia que se misturava com a luz do dia e o calor do sol. Num relance ela olhou para mim e sorriu. Um sorriso tão cheio de vida que meu coração acendeu-se novamente. Senti uma força tão forte que vinha do seu olhar que parecia que irradiava em mim energia.

Em passadas miúdas ela foi achegando-se a mim, sentou-se ao meu lado e percebi de onde vinha a melodia que enchia o ar quando ela dançava: era sua voz. Uma voz tão suave que acariciava meus ouvidos e suas palavras, ah suas palavras, eram de uma sabedoria e de uma esperteza que parecia que ela havia aberto minha mochila e fuçado em tudo que havia lá dentro, conhecendo cada pedacinho de mim, cada dor, cada prazer, cada contentamento, cada dúvida, cada sofrimento, cada paz.

O prazer de estar ao lado dela, de ouvi-la, de tocá-la, de dançar no campo junto a ela era incapaz de ser medido. Fui deixando-me ficar. Sua presença me satisfazia por inteiro. Já não me importava mais com meus pertences tão bem guardados, não precisava guardá-los dela, ela parecia já conhecê-los e não se importava com eles.

Dias e noites passaram. Dias de sol aquecendo a pele, noites de lua banhando de prata nossos corpos. Dias de chuva que lavava nossa alma, noites de estrelas que brincavam de esconde-esconde com as nuvens.

Em uma dessas noites, ela dormia mansamente em meus braços, podia ouvir sua respiração compassada e sorria com o bater do seu coração bem perto ao meu. Em uma dessas noites voltei a sonhar; aquele sonho sufocante que não me permitia ficar parado; aquele sonho que me chamava; aquele sonho que me cegava.

Com toda delicadeza que ainda restava-me coloquei-a de lado. Sorrateiramente levantei-me, tomei novamente minha mochila, atei bem o nó das minhas lembranças, acomodei todos os meus sentimentos lá no fundo, sufoquei minhas emoções entre outras coisas e parti. Quando já ia longe parei por um instante e olhei para trás, olhei para a moça: ela estava sentada junto a árvore. Vi em seu rosto, seus olhos negros deixarem cair uma lágrima. Ela não disse uma só palavra, nem um gesto fez, apenas deixou-me ir, seguir meu caminho, continuar minha busca.
Hoje ainda vago por campos, montanhas, rios, vales desertos. Caminho entre flores roxas e amarelas, ouço o vento, aqueço-me ao sol, conto as estrelas e continuo a minha jornada; ainda busco encontrar o que é perfeito, o máximo de excelência que uma pessoa ou coisa pode alcançar. A pureza, o apuro, o  primor, o esmero, o requinte. A per-fei-ção.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

MEU PERSONAGEM FAVORITO DE LIVRO

Eu tentei. Juro que tentei. Procurei em todos os cantos, visitei cada sala. Entrei nas salas escuras, nas ensolaradas, naquelas onde as teias de aranha desciam do teto como rendas perfeitas e grudentas, nas salas poeirentas e naquelas todas arrumadinhas, limpinhas e perfumadinhas.


Em algumas salas apenas enfiei a cabeça para dentro e chamei por alguém num sonoro “oláaaaa”. Em outras, a porta pesava rangia e, acompanhada de um arrepio de medo, entrei mais profundamente e vasculhei gavetas, armários e mesas. Nestas últimas encontrei algumas gentes um tanto quanto taciturnas e, com alguma dificuldade consegui arrancar-lhes uma palavra ou outra, sobretudo para lembrar-me o motivo pelo qual permaneciam ali. Houve momentos que um nó amarrou minha garganta e lágrimas encheram meus olhos ao ouvir seus relatos de tão poucas palavras; neste momento saia silenciosamente e fechava a porta atrás de mim.

Numa dessas salas escuras encontrei um belíssimo rapaz que olhava para a paisagem lá fora através de uma enorme janela de vidro. Não havia som naquele ambiente, só o silêncio. Olhos amendoados e semblante triste, ele disse-me estar cansado de viver, ou, pelo menos, de permanecer neste mundo. Queria adormecer, permitir que sua mente desligasse-se. Em meio a nossa conversa, um fio de esperança iluminou seus olhos: era o amor, talvez proibido, talvez improvável, mas um amor tão forte que seria capaz de derrubar todas as barreiras e fazê-lo sentir novamente vontade de viver, ou, de permanecer neste mundo. Apesar de encantada por aquele lindíssimo rapaz, sabia que não era ele. Fechei a porta atrás de mim, e continuei minha procura.

Em uma das salas ensolaradas encontrei um menino de cabelos encaracolados da cor do sol que brincava ao sabor do vento que vinha das janelas abertas. Reparando melhor, parecia que nem havia janelas, a impressão que dava é que o menino de cabelos encaracolados da cor do sol brincava num enorme deserto, que mesmo com toda aquela claridade vinda do céu não era quente, pois o garotinho sustentava um sobretudo azul turquesa e não parecia sentir calor. Vez ou outra esse garotinho mostrava-me seus desenhos, duas folhas que ele tinha guardadas no bolso do sobretudo, uma trazia uma cobra que acabara de engolir um elefante e na outra uma caixa de onde podíamos ver, pelos buracos redondos na lateral, um carneiro.

Fiquei horas brincando com aquele menino de cabelos encaracolados da cor do sol, acreditei até que poderia ser ele, mas como é difícil tomar uma decisão dessas. Então, numa despedida calorosa saí daquela sala e, quando fechava a porta atrás de mim, ouvi sua risada sonora que me acompanhou até que eu abrisse outra porta e entrasse em outra sala.

Esta outra sala era escura, parecia mais um porão, e nela havia uma menina de pele muito branca, magrinha e de cabelos escuros. Ela estava sentada a um canto e lia um livro com páginas grossas, que pareciam ter sido pintadas com tinta branca e alguém havia escrito por cima. Ela contou-me algumas histórias, umas tristes, outras alegres, mas todas muito interessantes. Eram histórias que ela havia vivido, que ela havia ouvido, mas, sobre tudo, que ela havia lido. Por instantes apostei nela como sendo a eleita, mas desisti depois, apesar dos muitos atributos que sabia que ela tinha, ainda não era ela. Sai despedindo-me com um beijo e um abraço bem apertado. Quando fechava a porta atrás de mim senti, ainda, seus dedos gelados sobre minha pele.

Quando abri outra porta, deparei-me com uma árvore plantada no meio da sala e sobre ela um garoto. Aquele menino franzino parecia conversar com a árvore. Não consegui subir até ele, pois os galhos da árvore tinham espinhos, mas fiquei aos seus pés ouvindo sua história. Rimos juntos, criamos aventuras imaginárias, olhamos para o céu e brincamos de adivinhar desenhos nas nuvens. Fechei a porta daquela sala com uma agradável leveza no meu ser, algo maroto, que me remetia à minha infância.

Porta atrás de porta fui abrindo, uma a uma. Gentes e mais gentes fui revisitando, relembrando, re-apaixonando, re-admirando. Mas não consegui eleger uma única gente. Não foi possível. Cada uma delas tem uma história diferente, despertou em mim um sentimento diferente, remeteu-me a uma situação diferente, mostrou-me algo diferente, possibilitou-me tornar-me um pouquinho diferente.

Desta forma, declaro aqui, ser impossível a uma pessoa tão apaixonada por livros como eu, eleger um, um único personagem favorito de livro, pois todos me são especiais e sou incapaz de escolher apenas um.

Este texto faz parte da Blogagem coletiva: Meu Personagem Preferido, do Blog Livros e Afins de Alessandro Martins .